Introdução

Eu tenho quase certeza de que você ou já viu, ou mesmo já comprou uma de suas criações. Transitando por entre mundos de fantasia e do gótico, Matthew J. Black trouxe  a vida uma série de icônicas criaturas, desde monstros (Vampiros, Gênios) e mutantes (Wolverine, Noturno) até famosos personagens tais como Hellboy, He-Man e Esqueleto… vamos entender um pouquinho do que se passa dentro de sua mente!

A Entrevista… (realizada em 13/03/2018)

01 – Qual sua idade e há quanto tempo você trabalha como escultor profissional?

(MB) Tenho 39 anos, e venho trabalhando nessa indústria desde que tinha em torno de 19 anos. E Já se vão 20 anos… e tem sido uma longa estrada. Muitas valiosas lições aprendidas. Algumas boas, outras ruins. Tive a oportunidade de ver muitas grandes mudanças nessa indústria. É realmente excitante o caminho para o qual estamos indo.

02 – Como você se descobriu um escultor? Você prefere utilizar a modelagem “a moda antiga” com argila ou você é um adepto da modelagem 3D (ZBrush, etc.)?

(MB) Eu sempre estive criando arte. Desde que era muito jovem, nunca me deixavam sozinho, pois sempre estava modificando meus brinquedos ou, ainda, criando novos. Foi durante o período do colégio em que fiz minha mudança de direcionamento para a escultura. Eu estava entre o segundo e o terceiro ano e, em dado momento, eu realmente quis me tornar um antropólogo, mas isso não foi pra frente. Acabei tendo uma aula com Jordu Schell. Nessa aula ele estava ensinando a turma como fazer uma máscara de borracha e como esculpir maquetes. Eu fiquei ligado naquilo.

Obviamente, comecei da maneira tradicional. Voltando ao tempo no qual comecei, tudo era feito de cera ou argila. A maior parte do que esculpi profissionalmente foi feito em argila. Agora, toda a indústria rapidamente está se tornando digital. A escultura digital propicia muito mais destreza. Ela permite revisões e melhorias muito mais rápidas. Isso também abre espaço para artistas de todas as partes do mundo. Você não precisa mais esculpir e depois despachar uma escultura delicada da Argentina ou, da Tailândia.  Basta você enviá-la via e-mail. É maravilhoso que tantos grandes talentos ao redor do planeta possam ter acesso a uma indústria que era tão limitada 20 anos atrás.


 
03 – Para quais empresas você já trabalhou?

(MB) Muitas para se nomear. Trabalhei por muitos anos em algumas empresas que prestavam serviço para fabricantes de esculturas. Eles eram responsáveis pela criação de protótipos para quase todas as grandes fabricantes. Dessa maneira, tive a oportunidade de fazer um pouquinho para quase todo mundo. Eu também trabalhei com uma enorme variedade de produtos. Qualquer coisa, desde embalagens de xampu no formato de princesas até chaveiros do Homem-Aranha. Nem sempre eu estive envolvido com a escultura de colecionáveis de alto padrão, as vezes você tem que simplesmente pagar suas contas esculpindo Walkie-Talkies e suportes para Escovas de Dentes. No entanto, esses projetos não são de todo sem valor. Você está sempre aprendendo, não importa qual seja o trabalho. 

04 – Existe algum tipo de personagem que você ache mais fácil de esculpir / o que você prefira esculpir?

(MB) Depois de um tempo TUDO fica mais fácil. São apenas formas. Eu costumava olhar os conceitos e ficar realmente intimidado, e pensava “como Diabos vou fazer ISSO?” Agora, penso, depois de fazer isso por tanto tempo, posso olhar para uma determinada arte e fragmentá-la em pequenas tarefas, mentalmente. Até conceitos mais complexos como de um Alien Giger não são tão difíceis assim, basta que você perceba que é apenas um padrão de formas geométricas e camadas.

Eu realmente adoro esculpir qualquer coisa que seja uma mistura de formas orgânicas e roupas. Coisas que tenham toneladas de camadas e detalhes, roupas, anatomia, qualquer coisa que me permita exercitar minhas habilidades. Quando você entra de cabeça em um projeto, você acaba conseguindo entrar nesse estado “Zen”, onde o mundo desaparece de sua volta e você sente que nem mesmo possui um corpo. O projeto se torna você e a arte. Isso é o que mais amo sobre o fato de criar algo.

05 – Quando você está em meio ao processo de escultura, o que você considera como sendo as partes mais fáceis, difíceis e aquela que mais lhe proporciona prazer?

(MB) Começar é sempre a parte mais difícil. É como olhar um elefante e pensar “como é que faço para comer isso?”. O processo lembra muito com o de escalar uma montanha. Você dá o primeiro passo e, conforme segue, entra um determinado ritmo. Assim, antes que você perceba, a maior parte do elefante já se foi.

Com certeza, o aspecto que mais me proporciona prazer é, assim que você termina, dá um passo para trás, olha, e aprecia por um momento antes de dizer, “OK, qual o próximo?!”.

06 – Sei que você é um grande fã da Anne Rice (escritora norte-americana famosa pelo livro “Entrevista com o Vampiro”) – assim como eu. Você já teve a oportunidade de esculpir qualquer um de seus personagens? Caso não, qual dos personagens dela seria o primeiro que você gostaria de esculpir e por qual razão?

(MB) Eu amoooooo as Crônicas Vampirescas da Anne Rice. Eu comecei a ler os livros dela quando tinha por volta de 14 anos de idade e eles tiveram uma grande influência sobre mim, me ajudando por muitos momentos difíceis pelos quais passei. Seus personagens são tão destemidos e vivem a vida no seu máximo. Isso é algo que eu também tento fazer.

Desafortunadamente, nunca tive profissionalmente a chance de trabalhar com qualquer coisa relacionada as Crônicas, mas particularmente, eu tenho. Venho trabalhando em um busto em tamanho real do Vampiro Lestat baseado em Tom Cruise por muitos e muito anos, mas nunca tive tempo suficiente para finalizá-lo. É um daqueles projetos “para quando der”.

 

07 – Eu possuo em minha coleção duas estátuas esculpidas por você (Wolverine Premium Format com o uniforme marrom e o Noturno Comiquette) e, em breve, uma terceira que também foi “tocada por suas mãos” irá se juntar a minha coleção, Alucard do jogo Symphony of the Night a ser lançado pela Mondo. Você poderia nos contar um pouquinho de como foi fazer parte desse projeto? Quanto do seu estilo acabou por influenciar o mesmo? Você consegue vislumbrar mais alguma estátua de Castlevania sendo trazida a vida pela Mondo?

(MB) Curioso você falar isso. Conheço várias pessoas que já me disseram saber exatamente qual peça havia sido esculpida por mim. Talvez isso seja pelo fato que elas são realmente ruins! ha! É sempre bom quando você tem a chance de imprimir o seu estilo no design de um projeto, ao invés de simplesmente copiar aquilo que está no esboço proposto. É muito divertido quando você pode fazer alguns estudos de pose e isso realmente é uma das vantagens de fazê-lo em 3D. Isso acaba fazendo tudo parecer-se mais com uma jornada pessoal.

Com toda certeza eu adoraria fazer mais coisas de Castlevania! Eu adoro trabalhar com qualquer coisa que seja relacionada a vampiros. No entanto, isso fica apenas a critério da Mondo. Espero que eles tenham gostado do meu trabalho.


 
08 – Qual o seu trabalho/projeto favorito (até o momento)?

(MB) Ó meu Deus, está é uma difícil. Geralmente meu favorito é sempre o meu projeto atual. Você realmente precisa imergir a si no mundo, no assunto, nos hábitos. Você acaba adquirindo um senso de familiaridade com qualquer coisa que o seja. Muitas vezes, depois que está terminado, tenho um momento difícil ao olhar o resultado por mais do que alguns momentos. Sinto-se como se de algum modo aquilo tivesse chegado ao seu limite. E então, estou pronto para seguir em frente.

Obviamente, eu tenho licenças favoritas para se trabalhar. Eu amo todas as coisas relacionadas a Guerra nas Estrelas, Harry Potter, e tive sorte o suficiente para trabalhar em uma vasta gama de produtos de ambas franquias. Alguns de meus trabalhos favoritos foram dentro desses temas. Atualmente tenho trabalho em um projeto que é meu projeto dos SONHOS. Como é de se esperar, não posso falar sobre ele, mas é algo que realmente sempre esteve em minha lista de desejos. Mal posso esperar para compartilhar isso com vocês. O tema é muito precioso para mim e é baseado em um filme que eu sempre amei. É algo que realmente influenciou a minha infância.

09 – Uma vez que você faz parte do mercado de colecionáveis e possui sua gama de influência sobre ele, nós gostaríamos de saber: você coleciona alguma coisa ou possui algum tipo de passatempo? Você coleciona as estátuas nas quais trabalhou?

(MB) Eu costumava colecionar MUITA coisa. Em sua maioria, na escala 1/6, mas minha coleção se tornou tão grande e, literalmente, um fardo, que acabei me desfazendo de TODA ela. Foi libertador. Desde então, minha ânsia por colecionar diminuiu bastante. Muita coisa de Guerra nas Estrelas ainda ficou comigo. De tempos em tempos eu e desfaço de alguma coisa para não morrer em uma avalanche de brinquedos. Por sorte, tenho muitos amigos que ficam mais felizes com eles em suas mãos do que eu.

Minha esposa e eu adoramos colecionar algumas quinquilharias. Nossa casa se parece com um enorme projeto de arte. Todos os itens são cuidadosamente selecionados. Então, não temos muito espaço para estátuas e brinquedos. Muitas coisas que fiz em meu trabalho acabam empilhadas em minha garagem. Talvez, algum dia, minha filha exponha tudo e possa apreciá-los.


 
10 – O que você sugeriria ou aconselharia para aqueles que estão começando a esculpir?

(MB) Você tem que AMAR esculpir, NÃO as esculturas. É no processo que você precisa ter foco, não no produto. Você tem que passar a maior parte do seu tempo cometendo enganos e depois, jogando a arte que produziu no lixo. Não tenha medo de começar de novo. Apaixonar-se por seu trabalho (escultura) é um dos maiores erros que você pode cometer, isso só limitará seu crescimento. Se não parecer estar certo, arranque fora e faça de novo, e de novo, e de novo…

Trabalhar com isso profissionalmente significa repetir sem penar uma série de tarefas. Existem momentos onde você não estará fazendo nada além de cotas escamas e seguir colando elas no corpo, por horas e horas, mas desde que você ame o processo de criação, você não dará muita importância a isso. Outra coisa! Não corra para ficar detalhando uma determinada parte, pois essa é que é a grande diversão. A FORMA vem primeiro. Muitos escultores deixam de lado a parte de uma blocagem bem feita das formas e só querem passar para o detalhamento e em que a peça fique “irada”.

Meu principal conselho seria esculpir algo sensacional, depois jogar isso no lixo. Quando você aprender que não é sobre o resultado, ou a recompensa, então você estará pronto para realmente começar a aprender.

11 – Para quais empresas você gostaria de trabalhar?

(MB) Qualquer empresa que tenha um plano claro. Uma empresa que tenha pessoas humildes e com mente criativa que amem o que estão fazendo e que adorem fazer coisas realmente legais. Eu adoro trabalhar com pessoas que tenham “zero ego” e que sejam muito colaborativas.


 
12 – Você poderia me listar 3 de suas bandas e filmes favoritos?

(MB)  Isso muda a cada instante ao longo do dia!!!

Ok. Três filmes seriam “Only Lovers left Alive” (Amantes Eternos), “What we do in the Shadows” (O quê fazemos nas Sombras) e “Interview with the Vampire” (Entrevista com o Vampiro). Bem brega, eu sei, mas eu também sou brega! Bandas, Gary Numan!!! Bauhaus deveria estar no meu Top 10, e… hummmm deixe me ver. Está vai para a posteridade… digamos que Adam and the Ants.

13 – Se você tivesse a chance de encontrar uma criatura/ser sobrenatural, qual criatura você gostaria que fosse?

(MB) Dã… um vampiro, obviamente. Não um desses que brilhem. Que fosse o Marius (personagem das Crônicas Vampirescas de Anne Rice).

14 –Bem, acho que basicamente é isso. Muito obrigado por aceitar nosso convite e deixamos aqui um espaço aberto para você compartilhar uma mensagem com seus fãs brasileiros.

(MB)  Agradeço a todos pela oportunidade e continuem ligados nos meus trabalhos!!!

Muito, muito obrigado novamente por aceitar o convite da ToyReview.com.br e compartilhar conosco suas idéia, Sr. Black!

 

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